Data-01/01/2060
Moledo, Portugal
Como é que vou começar... já
nem consigo contar pelos dedos há quantos anos é que não escrevo em ti....
enfim! Aparentemente já passou mais um ano. Já fiz 58 rugas na cara, eu que
dizia a brincar à minha mãe, com esta idade, que ela estava velha. Olha, queria eu
estar tão bem conservada como ela quando tinha a minha idade.
A família reuniu-se na casa
da minha irmã. Tal como o meu avô, ela queixa-se constantemente que já não tem
idade para nos aturar a nós todos, mas a Teresa é a Teresa, diz coisas que nunca
pensa, é apenas uma das manias dela, sempre assim foi, pelo menos que eu me
lembre. Mas volto a citar: estou velha, a minha mente está completamente
rebuscada, embora, pensando bem, sempre fui cabeça de vento, esquecida, fazia
sempre tudo no último minuto, mas não me leves a mal, posso ser horrível com
nomes, ainda pior com caras, nem sequer vou mencionar quão terrível sou
com caras. Mas vozes: isso sim, disso não me esqueço, graças a Deus, senão estaria
perdida.
Tudo mudou nestes últimos
anos. Como tudo na vida, obviamente, pouco foi para melhor: a taxa de obesidade
aumentou bruscamente. Imagina toda a gente a usar os novos aparelhos para tudo...
mas eu continuo a ter um fraquinho por escrever (e desenhar) em papel, adoro
aquele cheiro da folha, sabes? de livros acabados de comprar e folheados pela
primeira vez, os bicos de lápis partidos (de que, se não me engano, já fiz coleção
quando eu tinha uns cinco anos... eu era uma criança bem idiota). E o cheiro a
queimado produzido pelas borrachas quando se apaga com as pressas! Isso sim, é
provavelmente o que me faz continuar a escrever em folhas, e também o facto de
não ter o autocorretor em cima de ti (que é bem irritante: eu quero
escrever raro, não rato!).
A sociedade está a ir por
água abaixo, as pessoas já não têm aquele gosto de se ajudarem como se tinha
antigamente, não se pode confiar nos vizinhos e estamos AINDA mais competitivos...
e nem se fala do gosto que agora as pessoas têm de espezinhar o próximo.
Olha, estão a chamar-me para
ver o fogo de artifício... vou ter de ir...
Escrevo
em ti mais tarde.
Inês
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