segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

58 rugas na cara



Data-01/01/2060

Moledo, Portugal

Como é que vou começar... já nem consigo contar pelos dedos há quantos anos é que não escrevo em ti.... enfim! Aparentemente já passou mais um ano. Já fiz 58 rugas na cara, eu que dizia a brincar à minha mãe, com esta idade, que ela estava velha. Olha, queria eu estar tão bem conservada como ela quando tinha a minha idade.

A família reuniu-se na casa da minha irmã. Tal como o meu avô, ela queixa-se constantemente que já não tem idade para nos aturar a nós todos, mas a Teresa é a Teresa, diz coisas que nunca pensa, é apenas uma das manias dela, sempre assim foi, pelo menos que eu me lembre. Mas volto a citar: estou velha, a minha mente está completamente rebuscada, embora, pensando bem, sempre fui cabeça de vento, esquecida, fazia sempre tudo no último minuto, mas não me leves a mal, posso ser horrível com nomes, ainda pior com caras, nem sequer vou mencionar quão terrível sou com caras. Mas vozes: isso sim, disso não me esqueço, graças a Deus, senão estaria perdida.

Tudo mudou nestes últimos anos. Como tudo na vida, obviamente, pouco foi para melhor: a taxa de obesidade aumentou bruscamente. Imagina toda a gente a usar os novos aparelhos para tudo... mas eu continuo a ter um fraquinho por escrever (e desenhar) em papel, adoro aquele cheiro da folha, sabes? de livros acabados de comprar e folheados pela primeira vez, os bicos de lápis partidos (de que, se não me engano, já fiz coleção quando eu tinha uns cinco anos... eu era uma criança bem idiota). E o cheiro a queimado produzido pelas borrachas quando se apaga com as pressas! Isso sim, é provavelmente o que me faz continuar a escrever em folhas, e também o facto de não ter o autocorretor em cima de ti (que é bem irritante: eu quero escrever  raro, não rato!).

A sociedade está a ir por água abaixo, as pessoas já não têm aquele gosto de se ajudarem como se tinha antigamente, não se pode confiar nos vizinhos e estamos AINDA mais competitivos... e nem se fala do gosto que agora as pessoas têm de espezinhar o próximo.

Olha, estão a chamar-me para ver o fogo de artifício... vou ter de ir...

            Escrevo em ti mais tarde.
Inês

Sem comentários:

Enviar um comentário